O primeiro post que eu gostaria de traduzir é esta carta que foi mandada pelo Benito e publicada no MondoContrario no dia 29 de abril de 2007. É muito interessante, falando da sua experiência dentro da favela no Rio:
"Caros amigos, vos escrevo... acho que esta é a primeira vez, depois de quase três anos, que me sento para escrever a vocês com detalhes um experência que precisa ser contada.Antes de mais nada, VIVA a internet que nos mantém unidos!!! Eu ouço a rádio Città Aperta na internet!!! E a propósito, antes de começar, um dado estatístico: no Brasil somente 3% da população têm acesso à banda larga!!!
Bem, hoje eu estive, pela primeira vez em minha vida, em uma comunidade; diz-se comunidade por aqui (no Brasil, explicando para os italianos) é uma população que vive em uma zona degradada, em poucas palavras, uma favela. As favelas, pelo menos aquelas que se desenvolvem no ¨centro¨ do Rio, surgem na maioria das vezes sobre um morro.
Esta tarde, pela primeira vez subi no morro, e pessoal, foi uma experiência e tanto!!! Ressalto que isto não pode ser feito em outras favelas, não como nós fizemos hoje, po
is onde estivemos existe uma base do BOPE (Batalhão de Operações Especiais) da polícia, e por isso a comunidade é tranqüila, não tem o trafico de drogas e a criminalidade que existe em todas as outras favelas, e não existem os casos absurdos de mortes por balas perdidas, enfim, não existe a criminalidade que hoje em dia mata mais de dez pessoas por dia só na zona metropolitana do Rio. A noite previa uma balada em um barzinho que tocava jazz na favela. Ok, eu falei, se os outros vão deve ser tranqüilo, então vamos. Ok, pegamos o carro e nos dirigimos ao Catete, um bairro no centro do Rio, e ali pegamos uma ruazinha, Rua Tavares Bastos, uma ruazinha que nos levaria ao topo do morro, dentro da favela. Gente, que viagem, parecia estar nas montanhas da região Marche (Itália), sabem as curvas estreitas? Cheio! Direita, esquerda, sobe, sobe, direita, esquerda, e para minha surpresa, na rua que leva à favela havia casas belíssimas, enormes, todas lindas, e imagino com piscina e jardim interno. E sobe, sobe, pega a direita, pega a esquerda, e finalmente um pedaço de rua plana, e na nossa frente uma outra realidade, algo que não tinha nada a ver com o que tínhamos visto 100 metros antes, e com tudo aquilo que eu tinha visto de perto por quase 3 anos! As casas começavam a ser pequenininhas, de cimento aparente, sem pintura e sem port
ão. Caramba! Chegamos lá em cima e nos deparamos com outro mundo!!! Uma comunidade muito diferente daquela que povoa o Rio da classe média, uma música altíssima, era funk, uma música que está na moda entre as comunidades pobres do Rio, uma música que fala de sexo, drogas e violência!
Vamos em frente, nenhum perigo. Guto, o nosso amigo, marido da Fafá, que nos convidou para vir neste lugar, com muita inteligência não estaciona o carro lá em cima, na frente do bar, onde tinha um monte de gente e onde eu, idiota, teria estacionado; vamos estacionar mais pra baixo. Diz ele corretamente: eu não estaciono na frente do lugar onde o povo está se divertindo! E ainda bem que um de nós dois tem bom senso, acredito! Putz, eu teria estacionado lá em cima!!!! E ainda bem que não dirijo nesta cidade! E aqui estamos indo a pé em um lugar onde nunca estive antes, em um lugar que vi só no cinema ou na internet ou nos jornais quando se fala de morte, tiroteios, invasões e tráfico de drogas.
E aqui estamos nós, em uma favela!!!

Nossa senhora, pessoal! Nós estávamos bem vestidos, como burgueses, sabem né, as calças, a camiseta, essas coisas, e porra, nós somos brancos!!!!! Caramba, foi incrível, muito! Tinha um ponto onde o território era claramente dividido, onde claramente entrávamos na favela, era um cruzamento pequenininho mas com 3 ou 4 bares, com esse funk no último volume e todo mundo que dançava, e ninguém era branco, e todos nos olhavam, e todos quase riam entre eles, como quem diz: "olha aí os gringos, olha aí que estranhos, olha que engraçados". Caraca, nunca me senti em toda a minha vida tão observado como naquela noite. Porém, tranqüilo, passamos e ninguém nos disse nada. Foram acho que uns 200 metros de delírio, eu que tinha medo de olhar as pessoas na cara, nunca se sabe, mas não pegou nada, ninguém ali teria feito nada de mal (maldito pré - conceito!!!!)
E sabem onde eu fui parar? Fui parar em uma ruazinha estreitinha como aquelas de Sutri (cidade onde Benito cresceu, perto de Roma), de Capranica, de Vetralla, de Tuscania, de Viterbo, uma ruazinha bem estreita, com todas as casas uma do lado da outra, com dois andares, com as plantas na frente de casa, com as portas e paredes bonitas, todas pintadas, com as lojinhas tipo casas de frios e cabeleireiros e locadoras de filmes e assim por diante, e muitas casinhas pequenininhas como nos nossos (italianos) centros históricos, a única diferença é que estas casinhas não são de 200 anos atrás! De resto era tudo igual, e galera, a rua era limpíssima, nunca no Rio eu vi uma rua tão limpa e bem cuidada. Que surpresa! Que bela surpresa!!!! Depois de 5 minutos de caminhada chegamos no lugar, um lugar bonito, um lugar de classe média, já! E olha eu aqui, em casa, bela música, bela gente, samba!!!! E uma vista fantástica! Pois é, porque os morros onde nascem as favelas têm uma vista belíssima, e caramba uma vista que a classe média e os ricos não têm, um privilégio que é difícil de explicar! Ficamos ali comendo churrasco, bebendo caipirinha e ouvindo boa música, admirando uma esplêndida vista por horas! Pessoal, foi uma coisa de louco!!!
Visitem o site, é AQUI que estive!
Bom, gente são mais de 3 da manhã enquanto estava escrevendo para vocês tomei 3 cervejas e fumei 2 cigarros, não enxergo mais muito bem, então acabo aqui este e-mail...
Me sinto muito feliz por esta aventura e com certeza voltarei, mas da próxima vez tiro fotos e mando a vocês, ok? Espero ter transmitido esta ótima energia, e espero que vocês não digam "queria ir" mas digam "vou"!!!
Um grande beijo e abraço fortíssimo aqui do Rio.
Benito"
Obs.: O Benito é ítalo-brasileiro, nascido em São Paulo e crescido na Itália. Há três anos mora no Rio de Janeiro.
Gostaria de acrescentar que estive em um lugar semelhante em São Paulo, na comunidade Monte Azul. O projeto deles é bem diferente, é um programa que inclui oficina de reciclagem, escola e creches para mães que trabalham poderem deixar seus filhos tranqüilas. Deixo o link pra vocês, marquem uma visita, vale muito a pena! Essas pessoas são um grande exemplo para nós que só reclamamos da vida em vez de nos empenharmos em fazer algo de construtivo e buscarmos nós mesmos a solução para os nossos problemas, em vez de esperar que caia do céu!
Ação Comunitária Monte Azul












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Caro Benito. Foi maravilhoso saber que você gostou da noite que passou em nossa casa. Você é bem vindo a voltar. Estaremos fazendo nova sessão de Bossa Nova sexta feira dia 12/10/07 e uma sessão extra de Rock Progressivo no dia 19/10/2007, depois vamos fechar pois a casa foi locada pela produção do filme "O Incrível Hulk" que vai ser gravado aqui. Estaremos de volta somente em Dezembro. Visite nosso site www.jazzrio.com e mais uma vez obrigada pela sua presença e lembre-se: A Maze é um pouco de todos nós. Malu
Oi Benito, Luca e Adriana
tenho que retribuir dizendo como eu adorei meu tempo em Roma, faz tempo, faz muito tempo. Morava num apartamento no Campo dei Fiori e visitava a minha amiga Anastasia Ferrari ao lado do Coliseo e a turma trabalando em Cinecittá. Agora, de volta no presente, estou escrevendo "Flipside" um livro de ficcão, mas que pega todos os ingredientes da minha vida, minhas viagens fazendo as centenas de documentários ou iniciando e terminando amores, incluindo Roma, sua Mafia, suas belissimas modelos, criando um coquetel além da verdade e além da vida. Tudo bem, entre capitulos estou pintando meus quadros, construindos mais 12 suites para vocês ficarem na MAZE, e cantando Jazz.
O ator Edward Norton logo logo vai cair da minha janela e voltar raivoso, verde e incrivelmente Hulkoso. Ele e mais duzentos do elenco, equipe técnica e produção vão embore no dia 22 de Novembro, e, aí, podemos abrir a porta para vocês de novo. Logo vem Natal e Reveillon. E logo depois estaré atuando como ator com Matt Dillon e Charlotte Rampling num filme experimental, aqui na favela. Essa vida esta cheia de surpresas. Bob Nadkarni
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